
Acabo de voltar do RS. Apesar de gastar mais de 7h de ônibus para chegar à São Miguel das Missões a partir de Porto Alegre, achei a viagem trilegal.
Como em toda viagem, a parte boa é o número de pessoas legais que você conhece… a parte ruim e triste é tomar consciência de que é improvável que você irá um dia às reencontrar… ainda mais quando estamos tratando de uma cidade pequena e muito muito distante : (
Talvez valha a pena falar um pouco da história de São Miguel (momento doc BBC do BIP…), pois suponho que muitas pessoas desconhecem sua importância, assim como eu a desconhecia (parece que os livros escolares de história também não conhecem muito).
Toda a história dessa cidade se inicia quando, em 1549, o papa Paulo III envia à America do Sul grupos de missionários jesuítas para “salvar a alma” dos índios Guaranis através do batismo e da catequese. Eles se instalaram principalmente no Paraguai, Argentina, Uruguai e Brasil. Aqui, eles ocuparam áreas dos estados do Paraná e Rio Grande do Sul, onde foram edificadas dezenas de “reduções”, as chamadas missões. Essas missões levaram para o cone sul da américa um desenvolvimento considerável (se é que podemos considerar a modificação de culturas locais por agentes externos como desenvolvimento, mas enfim…). Foram construídas verdadeiras cidades que eram comandadas por jesuítas e tinham como pilar central, obviamente, a religião católica. Na cidade havia hospital, asilo, escolas, produção de alimentos, oficinas e pequenas indústrias. Eles ainda fabricavam seus próprios instrumentos musicais, e algumas reduções chegaram a possuir observatórios astronômicos. Como não poderia deixar de ser, o centro da cidade era ocupado por uma grandiosa igreja, que por sinal, é a única coisa cujos restos podemos ainda observar. Tudo era construído (arquitetônicamente falando) segundo os padrões europeus vigentes na época.
Nessas reduções, o ferro começou a ser industrializado, os primeiros tecidos foram produzidos e a atividade pecuária na América do Sul se iniciou. Daí a origem da vocação pecuária dessas regiões ocupadas pelas missões (báh, olha aí o churras gaúcho chê!) . Inicialmente, os jesuítas tentaram catequizar outras tribos também, como os guenoas e os charruas, mas esses povos eram inimigos dos Guaranis, e então ficou difícil o estabelecimento de uma comunidade entre eles (báh, olha aí o grenal chê! hehehe brincadeira!). Nas reduções, os Guaranis reproduziam obras-de-arte européias com grande fidelidade e ainda reproduziam documento no melhor estilo monge-copista da-idade-média.
As missões eram subordinadas ao trono espanhol, tendo por diversas vezes servido como braço armado para conter a expansão portuguesa e outras invasões externas. Porém, haviam diversos opositores às missões jesuíticas. Estes faziam uso da notável (quase) auto-suficiência das reduções para insinuar ao trono espanhol um possível processo de independência dessas missões (assim o rei espanhol perderia o dinheiro dos impostos etc etc), passando a se referir a elas como “República Guarani”. Praticando o hobby oficial da humanidade, os espanhóis deixaram milhares de mortos nas missões, expulsando os jesuítas e deixando os Guaranis restantes sem qualquer comando ou coordenação. Após isso, estabeleceram-se administrações militares, transformando os índios em guerreiros para serem usados em diversos conflitos que ocorreram na região do rio da Prata. A população indígina foi reduzida quase a zero nos 70 anos que se seguiram após a expulsão dos jesuítas, mas, apesar disso, ainda existem tribos que hoje vivem da venda de suas produções artesanais, e contam com a proteção de entidades governamentais.
São Miguel das Missões faz parte do que costumam chamar de sete povos das missões. Esse município é considerado como a “capital” das missões jesuíticas, e é o que ainda conserva mais contruções da época. Lá localiza-se o Sítio Arqueológico de São Miguel Arcanjo, onde estão as ruínas jesuítas da antiga redução de São Miguel Arcanjo (ver fotos deste post). Essas Foram declaradas Patrimônio Mundial pela UNESCO em 1983, e hoje, apesar das limitadas verbas, está sendo bem cuidada através da ajuda de profissionais locais, tanto do ponto de vista da engenharia, quanto do ponto de vista do processo de educação e conscientização da população local.
Eu recomendo uma visita a essa cidade caso ela faça parte de um tour pelo Rio Grande do Sul. Não acho que valha a pena (financeiramente falando) se deslocar de outro estado para ir especificamente à São Miguel, já que, sem dúvida, é possível conhecer toda a cidade em apenas um dia. Como em todas as cidades pequenas, não há muito o que fazer quando não se está visitando os pontos turísticos. A única coisa que fica aberta até tarde é uma pizzaria no centro da cidade (recomendo!). Toda noite ocorre ainda um espetáculo teatral chamado Som e Luz, que dura por volta de 48 minutos e é realizado nas ruínas da igreja.

Site oficial da cidade: http://www.saomiguel-rs.com.br/
Site de onde copiei livremente alguns trechos da história:
http://www.riogrande.com.br/historia/missoes.htm
Báh, that’s all che!!! Barbaridád!